Receber um diagnóstico de câncer deveria significar o início imediato do tratamento. No Brasil, porém, para muitos pacientes, o maior desafio começa antes mesmo da primeira sessão: conseguir chegar ao local onde a terapia está disponível.
Foi o que viveu a dona de casa Jakeline Cardoso Lima, de 41 anos, moradora do interior do Amazonas. Para confirmar o diagnóstico de câncer de colo do útero, ela precisou enfrentar três dias de viagem de barco até Manaus. S
Em oferta de tratamento em sua cidade, não teve alternativa a não ser permanecer na capital durante todo o processo.
Sem condições de ir e voltar, mudou temporariamente de vida: levou uma filha adolescente para ajudá-la e deixou a mais nova com o avô.
Ao todo, foram seis meses longe de casa para completar 28 sessões de radioterapia, além de quimioterapia e outros procedimentos.
A história individual reflete uma realidade nacional. No Brasil, o acesso à radioterapia um dos principais pilares no combate ao câncer ainda depende diretamente de onde o paciente vive.
Um estudo nacional publicado em 2026 na revista científica International Journal of Radiation Oncology, Biology, Physics, com base em mais de 840 mil procedimentos do SUS, revela que mais de 60% dos pacientes precisam sair do próprio município para realizar o tratamento.
A distância média percorrida no país é de 120 quilômetros, mas os números escondem desigualdades profundas entre as regiões.
No Norte, pacientes chegam a viajar, em média, 442 km. No Centro-Oeste, 238,9 km. No Nordeste, 161,8 km. Já no Sul e Sudeste, o deslocamento gira em torno de 70 km.
Na prática, isso significa que um paciente da região Norte pode percorrer até seis vezes mais do que alguém do Sul para acessar o mesmo tipo de atendimento.
Para especialistas, esse cenário evidencia um problema estrutural: o acesso ao tratamento ainda é determinado pelo território. E os dados podem subestimar a realidade.
Isso porque o cálculo considera a distância em linha reta entre cidades, sem levar em conta as condições reais de deslocamento. Em regiões como a Amazônia, por exemplo, o trajeto pode envolver dias de viagem por rios, com custos elevados e logística complexa.
Além disso, fatores como tempo de deslocamento, gastos com transporte, alimentação e hospedagem não entram na conta o que amplia o impacto real sobre os pacientes.
A própria natureza da radioterapia agrava essa dificuldade: o tratamento exige sessões diárias ao longo de semanas, tornando inviável o deslocamento contínuo para quem vive longe dos centros especializados.
Outro fator que aprofunda a desigualdade é a concentração de tecnologias mais avançadas, como a braquiterapia e a radioterapia estereotáxica, disponíveis em poucos centros do país. Pacientes que necessitam desses procedimentos costumam percorrer distâncias ainda maiores.
Há também uma parcela invisível nessa realidade: os pacientes que sequer conseguem iniciar o tratamento.
Como o estudo considera apenas procedimentos autorizados pelo SUS, ficam de fora aqueles que não conseguem encaminhamento, não chegam ao serviço ou desistem antes mesmo de começar.
A raiz do problema está na distribuição desigual da infraestrutura. Equipamentos essenciais, como aceleradores lineares usados para emitir radiação de forma precisa, estão concentrados em capitais e grandes centros urbanos.
Ao mesmo tempo, o país ainda enfrenta déficit dessas máquinas, enquanto o número de casos de câncer cresce.
Sem uma expansão planejada e uma melhor distribuição da rede de atendimento, a tendência é de manutenção ou até agravamento das desigualdades regionais.
Especialistas defendem que não basta ampliar a capacidade instalada: é preciso direcionar investimentos para áreas com maior carência e reorganizar a rede de assistência.
Enquanto isso não acontece, o acesso ao tratamento segue sendo resolvido de forma individual, muitas vezes à custa de grandes sacrifícios.
Jakeline conseguiu concluir a terapia e hoje está em acompanhamento, com sinais de remissão da doença. Mas, para chegar até esse resultado, precisou reorganizar completamente a própria vida.
A experiência dela resume um problema maior: no Brasil, o acesso ao tratamento contra o câncer ainda não é apenas uma questão de saúde é também uma questão de distância, e de tudo o que ela impõe.
Fonte: G1


