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Coreanos que deram calote milionário em cearenses são procurados pela Interpol

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A empresa sul-coreana Posco Engenharia e Construção do Brasil voltou aos holofotes recentemente após decretar falência no fim do ano passado com uma dívida total de R$ 644 milhões e uma lista de credores apresentando 16 empresas localizadas no Ceará.

Coreanos que deram calote milionário em cearenses são procurados pela Interpol

Responsável pela construção da antiga Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), a Posco foi denunciada pelo Ministério Público Federal (MPF), em 2017, por evasão de divisas e associação criminosa.

Quem são os coreanos procurados pela Interpol?
Ao todo, oito ex-integrantes coreanos da empresa foram indiciados em denúncia da Procuradoria da República no Ceará, apresentada à 11ª Vara Federal de Fortaleza. São eles: Jung Geun Park, Jong Su Kim, Ducksil Lee, Yongcheol Son, Jiho Kim, In Wook Kim, In Kim e Tae Hwa Jeong.

Desses, Tae Hwa Jeong, Jong Su Kim, Ducksil Lee e Yongcheol Son estão foragidos e são atualmente procurados pela Polícia Federal, Justiça Federal do Ceará, Interpol e Justiça da Coreia do Sul. As informações são dos documentos de ações penais obtidos pelo Diário do Nordeste.

Conforme apontado por esses arquivos, o esquema da Posco na construção da CSP envolvia a utilização de empresas de fachada para contratar mão de obra coreana e fazer pagamentos por fora, sonegando encargos trabalhistas e previdenciários.

Além disso, é dito que o objetivo da multinacional era deixar que os negócios fantasmas arcassem com todos os débitos tributários, trabalhistas e previdenciários produzidos pela própria Posco.

Quem são os acusados no esquema da Posco
Tae Hwa Jeong
Jong Su Kim
Ducksil Lee
Jiho Kim
Yongcheol Son (“Mister Son”)
Jung Geun Park (“Mário Park”)
In Wook Kim
In Kim

“Armadilha financeira” e empresa fantasma escondida na CSP
A Posco Engenharia e Construção do Brasil foi criada pela sul-coreana Posco Engineering & Construction com o propósito de atuar na construção da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP).

A empresa é subsidiária da Posco Inc, que dividia o comando da CSP com a empresa brasileira Vale (50%) e a também sul-coreana Dongkuk (20%).

De acordo com a denúncia do MPF, o consórcio entre as três estabelecia uma cláusula que impedia a Posco Engenharia de construir, diretamente, a siderúrgica.
Por essa razão, o negócio coreano subcontratou inúmeras empresas para realizar o serviço. Entre elas estava a Braco, que tinha 99% das cotas controladas pela empresa C&G Engineering CO LTD, com sede na Coreia do Sul.

Esse negócio, porém, seria uma farsa. É o que diz o testemunho do acusado e ex-consultor administrativo da Braco, Jung Geun Park, presente no documento.

Segundo ele, ao visitar a sede da C&G Engineering na Coréia em dezembro de 2013, descobriu que o empreendimento tratava-se de uma empresa fantasma sem funcionários e percebeu que “havia entrado em uma armadilha financeira”.
A C&G Engineering é descrita, ainda, como uma defensora dos interesses da Posco Engenharia e Construção.

Em entrevista ao Diário do Nordeste, Jung Geun Park revelou que a interferência da Posco nas operações da Braco era tamanha que a multinacional coreana mantinha o centro operacional da empresa fantasma dentro da obra da CSP, com o objetivo de facilitar a manipulação de documentos.

“Eles chegavam com luvas e entravam nos computadores, apagavam e-mails”, lembra.
O documento do MPF também traz o resultado de uma investigação do Ministério Público do Trabalho (MPT), que concluiu que a Braco “só foi aberta para servir à Posco”, chegando a funcionar dentro de uma pousada e possuindo um único contrato.

Como funcionava o esquema de sonegação da Posco por meio da Braco
Com o objetivo de cortar custos na obra, a Braco, controlada pela Posco, optou pela mão de obra coreana.

De acordo com o acusado Jung Geun Park na denúncia do MPF, “a licitação vencida pela Posco não poderia ser concluída com trabalhadores brasileiros, por conta dos encargos trabalhistas e previdenciários”.

Assim, o texto indica que o plano era pagar, formalmente, o piso salarial para os cargos, e enviar o restante do dinheiro “por fora”.
Conforme consta nos depoimentos de testemunhas, a Posco era responsável por contratar e demitir os trabalhadores da Braco e outras subcontratadas.

Em uma das tabelas do documento (veja a seguir), é possível ver informações sobre 18 funcionários coreanos que trabalhavam na Braco entre fevereiro de 2013 e dezembro de 2014.

Os dados mostram que os salários na folha de pagamento variavam entre R$ 4.500 e R$ 10.900, enquanto os valores reais de pagamento iam de R$ 11.368,23 a R$ 20.210,19.

Os acusados In Wook Kim e In Kim também confirmaram que funcionários coreanos da Braco enviavam valores à Coréia, indica a denúncia.

No depoimento de Jung Geun Park, antigo consultor administrativo da Braco, é informado que a Posco, por meio da empresa de fachada, chegou a enviar à Coréia do Sul cerca de R$ 13 milhões, entre março de 2013 e novembro de 2014.

O acusado relata que o valor foi transferido sem o devido registro nos órgãos brasileiros, sendo usado tanto para pagar os trabalhadores coreanos do Brasil que mantinham as famílias na Coreia, quanto para subornos e remessa ilegal de dividendos.

Assim, de acordo com o texto do MPF, “os acusados se uniram em associação criminosa capitaneada pela empresa Posco Engenharia e Construção do Brasil Ltda para frustrar direitos assegurados pelas leis trabalhista e previdenciária, mediante envio à Coréia do Sul (para pagamento “por fora”), de parcelas dos salários de trabalhadores coreanos que laboram no Brasil, na construção da CSP”.
A acusação também expõe que “os dirigentes da Posco serviam-se de empresas subcontratadas, destacando-se a empresa (de “fachada”) Braco Construtora Ltda, que registrava nas folhas de pagamento e nas CTPS, valores de salários abaixo dos efetivamente pagos a esses trabalhadores”.

Posco deixa dívida milionária em nome da Braco, diz acusado
Ainda conforme o documento, em 2014, houve um rompimento entre a Braco e a Posco. A partir desse momento, a Posco passou a administrar todas as verbas da Braco, por meio de uma conta conjunta no banco Woori Bank, de São Paulo.

O rompimento também resultou na demissão sem aviso prévio de vários funcionários da Braco, gerando uma dívida trabalhista milionária assumida pela Posco. Segundo consta nos depoimentos dos acusados Ducksil Lee e Jong Su Kim, presentes no arquivo, o valor é de cerca de R$ 15 milhões.

Por outro lado, Jung Geun Park alega que a Posco deixou R$ 18 milhões de dívida para fornecedores e a União no nome da Braco.
Após declarar falência no fim de 2025, a dívida total declarada da Posco, entre débitos trabalhistas, tributários, para empresas e subordinados, inclusive cearenses, totaliza cerca de R$ 644 milhões. O valor, no entanto, pode chegar a quase R$ 1 bilhão, segundo o advogado e maior credor no processo, Frederico Costa.

Para essa estimativa, o especialista leva em consideração a suposta prática da Posco de deixar déficits no nome de empresas fantasmas subcontratadas na obra da CSP.

Posterior ao rompimento, a Braco foi substituída pelas empresas Daeah e Santos CMI na obra.

Para a denúncia do MPF, essa ação comprova que “o esquema ilegal montado pelos dirigentes da Posco para construir a CSP servia-se de empresas subcontratadas, (…) em que uma empresa era substituita por outra, recontratando os funcionários demitidos sem justa causa pela antecessora”.
O texto também afirma que “os casos de corrupção são evidentes e se repetiram no Vietnã e na Indonésia”.

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