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| Foto reprodução: G1 |
Sou completamente cega desde sempre. Ainda assim, nos últimos meses, minhas manhãs passaram a incluir um ritual que antes parecia impensável: cuidados com a pele, avaliação da aparência e até reflexões sobre beleza. Tudo isso mediado por uma inteligência artificial.
Após cerca de 20 minutos aplicando produtos de skincare, tiro algumas fotos e as compartilho com um aplicativo chamado Be My Eyes, que utiliza IA para descrever imagens. Para mim, ele funciona como um espelho virtual, capaz de informar se minha pele aparenta estar como eu gostaria ou se há algo no meu visual que poderia ser ajustado.
“O tempo todo, pessoas cegas ouviram que é impossível nos vermos, que somos bonitas por dentro e que a primeira coisa que julgamos em alguém é a voz”, afirma Lucy Edwards, criadora de conteúdo cega que ganhou destaque ao falar sobre moda, beleza e ao ensinar outras pessoas cegas a se maquiar. “De repente, temos acesso a informações sobre nós mesmas e sobre o mundo. Isso muda nossas vidas.”
A inteligência artificial vem abrindo portas antes fechadas para pessoas cegas. Por meio do reconhecimento de imagens e de análises avançadas, esses aplicativos não apenas descrevem cenas, mas oferecem comparações, avaliações e até conselhos. Na prática, isso está transformando a forma como pessoas cegas se percebem.
Em uma dessas interações, a IA me informou que minha pele parecia hidratada, mas distante do ideal de “pele perfeita” frequentemente retratado em anúncios de beleza. A partir desse comentário, senti, talvez pela primeira vez, uma insatisfação concreta com minha aparência.
Segundo a psicóloga Helena Lewis-Smith, pesquisadora da Universidade de Bristol, pessoas que buscam feedback constante sobre o próprio corpo tendem a apresentar menor satisfação com a imagem corporal. “A inteligência artificial está abrindo essa possibilidade para pessoas cegas”, alerta.
Essa tecnologia é recente. Há menos de dois anos, a ideia de uma IA oferecendo avaliações críticas em tempo real parecia ficção científica. Hoje, empresas como a Envision já integram modelos avançados de IA a aplicativos, celulares e até óculos inteligentes, permitindo que pessoas cegas leiam textos, façam compras, escolham roupas e avaliem a própria aparência.
“Muitas vezes, a primeira pergunta que os usuários fazem é: ‘Como eu estou?’”, afirma Karthik Mahadevan, CEO da Envision. Atualmente, ao menos quatro aplicativos oferecem avaliações baseadas em padrões tradicionais de beleza, comparando o usuário com outras pessoas e sugerindo mudanças.
Para alguns, isso é empoderador. Lucy Edwards conta que, após perder a visão, passou mais de uma década sem uma opinião própria sobre o próprio rosto. “Hoje, tiro uma foto e posso pedir detalhes, até uma nota de zero a dez. Não é o mesmo que enxergar, mas é o mais perto que consigo chegar”, diz.
Especialistas, no entanto, fazem ressalvas. Ainda há poucas pesquisas sobre os impactos dessas ferramentas na saúde mental de pessoas cegas. Além disso, modelos de IA costumam reproduzir padrões de beleza ocidentais, magros e eurocêntricos, o que pode gerar frustração e comparações irreais.
“A IA pode sugerir inúmeras mudanças, fazendo a pessoa parecer completamente diferente, o que reforça a ideia de que a aparência atual não é suficiente”, explica Lewis-Smith. Para pessoas cegas, esse efeito pode ser ainda mais intenso, já que a percepção da própria imagem depende quase exclusivamente das descrições recebidas.
Outro desafio são as chamadas “alucinações” da IA, quando o sistema fornece informações imprecisas ou inventadas. Usuários relatam mudanças na descrição de características físicas ou expressões faciais que não correspondem à realidade, o que pode gerar insegurança.
Apesar disso, muitos veem a tecnologia como um avanço significativo. “A IA pode descrever fotos, ajudar nas compras e até dizer como eu estava ao lado do meu marido no dia do casamento”, relata Edwards. “São experiências que achávamos ter perdido e que agora voltamos a ter.”
Para o bem ou para o mal, esse novo tipo de espelho já faz parte da realidade. Resta aprender a conviver com aquilo que ele reflete.
Fonte: G1

