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Estados mais afetados pela dengue confiaram mais em cientistas durante a pandemia de Covid-19

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Estados mais afetados pela dengue confiaram mais em cientistas durante a pandemia de Covid-19
Foto reprodução: G1

 
Ao longo da pandemia de Covid-19, as respostas dos estados brasileiros à crise sanitária foram marcadamente desiguais. Enquanto unidades como São Paulo e Ceará conseguiram manter estratégias mais consistentes e articuladas, outras, como Acre e Amapá, adotaram medidas fragmentadas e instáveis ao longo do tempo.

Essas diferenças não se explicam apenas pelas decisões tomadas durante a emergência, mas sobretudo pela capacidade estatal construída antes da chegada do vírus. Esse conceito diz respeito ao conjunto de estruturas, recursos, rotinas administrativas e competências técnicas que permitem aos governos enfrentar crises de saúde pública algo que não se cria do dia para a noite.

Essa é a principal conclusão de um estudo desenvolvido na Universidade de Montreal, no Canadá, que analisou comparativamente a atuação dos governos estaduais brasileiros durante a pandemia. A pesquisa mostra que a variação das respostas refletiu tanto desigualdades históricas na capacidade institucional quanto diferenças nas prioridades políticas e nas fontes de informação utilizadas pelos governos.

Estados que investiram de forma contínua em saúde pública ao longo dos anos tenderam a interpretar a crise sanitária sob uma lógica mais técnica e científica. O acúmulo institucional resultou em estruturas já operantes, com vigilância epidemiológica estruturada, equipes experientes e sistemas estáveis de produção e uso de dados. Esse cenário permitiu respostas mais coordenadas, baseadas em evidências e fortemente influenciadas por especialistas da área da saúde.

Em contraste, estados com menor investimento histórico em saúde entraram na pandemia com fragilidades institucionais. Sem bases de dados robustas e com menor expertise técnica, esses governos recorreram com mais frequência a informações vindas do setor produtivo e a comitês focados nos impactos econômicos da crise, o que resultou em estratégias menos orientadas pela lógica sanitária.

O estudo propõe uma interpretação inovadora para esse fenômeno a partir do conceito de “bolhas políticas”. Diferentemente das bolhas financeiras, essas se formam quando governos concentram recursos e atenção de maneira recorrente em determinadas áreas, especialmente em momentos de crise, e deixam legados institucionais duradouros. Essas bolhas moldam capacidades administrativas, circuitos decisórios e definem quais tipos de informação ganham centralidade em crises futuras.

No Brasil, experiências anteriores com epidemias como dengue e Zika levaram alguns estados a fortalecer sua infraestrutura sanitária de forma contínua. Onde houve essa concentração de investimentos, consolidaram-se estruturas técnicas que passaram a orientar as decisões durante a pandemia de Covid-19. Esse processo criou um ciclo de retroalimentação: mais capacidade técnica levou a respostas mais eficazes, que, por sua vez, justificaram novos investimentos em saúde.

Esse padrão também se refletiu na composição dos comitês criados para enfrentar a pandemia. Em estados com maior capacidade epidemiológica, esses grupos foram dominados por especialistas em saúde pública. Já em estados com menor estrutura, os comitês incorporaram representantes de setores como comércio e agricultura, ampliando o peso das preocupações econômicas na gestão da crise.

Enquanto bolhas financeiras tendem a se dissipar, as bolhas políticas, uma vez consolidadas, costumam persistir. Elas definem quem tem voz nos processos decisórios e quais informações são consideradas legítimas, influenciando diretamente a forma como os governos respondem a emergências sanitárias.

A pandemia de Covid-19 deixou claro que essas trajetórias institucionais importam. As crises passam, mas seus legados permanecem. Compreender como essas bolhas políticas se formam ajuda a explicar por que as respostas às emergências de saúde continuam tão desiguais entre os estados brasileiros e quem estará mais preparado quando a próxima crise chegar.

Fonte: G1

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