
Foto reprodução: G1
O convite veio de um homem chamado David Graham, que dizia ser médico e responsável pelo atendimento do avô de Abbie, internado após sofrer um AVC. O perfil parecia legítimo: fotos em hospitais, amigos reais e vídeos familiares. Apesar disso, algo não batia a mãe de Abbie nunca o tinha visto no hospital.
Meses depois, o suposto médico voltou a contatá-la, desta vez oferecendo uma oportunidade ligada à dança: um baile beneficente em Glasgow. Abbie aceitou participar e chegou a divulgar o evento, até receber uma mensagem anônima com um alerta direto: “Não confie em David Graham”. Ao investigar, descobriu que o evento não existia e que o homem não constava em nenhum registro médico.
A partir daí, Abbie iniciou uma investigação própria. Ao conversar com outras mulheres, criou um grupo secreto no Facebook e começou a cruzar informações. Foi assim que chegou a Adele Rennie, uma enfermeira que trabalhava no mesmo hospital de seu avô. A constatação foi chocante: a mulher que ela via nos corredores do hospital era a mesma pessoa por trás do perfil falso.
Mesmo após denúncias à polícia, Abbie ouviu que criar perfis falsos não era crime, desde que não houvesse fraude comprovada. Frustrada, decidiu tornar o caso público nas redes sociais. A reação foi imediata: dezenas de mulheres relataram experiências semelhantes, algumas envolvendo chantagem com fotos íntimas.
Adele Rennie viria a ser apontada como uma das golpistas online mais prolíficas da Escócia. Um documentário da BBC revelou que ela usou identidades masculinas falsas por mais de 15 anos, enganando até 100 mulheres. Entre as vítimas estava Samantha, que manteve um relacionamento virtual com “David” marcado por presentes, ligações constantes, controle emocional e encontros sempre frustrados. A farsa só foi descoberta quando ela flagrou que o suposto médico era, na verdade, uma mulher usando aplicativos de modulação de voz.
Rennie foi presa pela primeira vez em 2015 e condenada em 2017 por crimes como perseguição, coerção sexual e comunicações indecentes. Apesar disso, voltou a reincidir após sair da prisão, adotando novas identidades em aplicativos de namoro. Em 2019, recebeu nova condenação. Ainda assim, os golpes continuaram.
Em 2023, Abbie voltou a identificar padrões conhecidos em perfis suspeitos no Tinder. Ao rastrear imagens e vídeos, confirmou novamente a presença de Rennie. Em menos de 24 horas, a golpista foi presa pela terceira vez, acusada de perseguição, fraude e coerção sexual.
Especialistas apontam que traumas de infância podem estar associados a comportamentos desse tipo. No documentário, a mãe de Rennie relata um histórico familiar marcado por violência doméstica e pelo suicídio do pai da golpista quando ela ainda era criança.
Atualmente, Adele Rennie cumpre mais uma pena de prisão e afirma estar em tratamento psicológico. Em declaração, pediu desculpas às vítimas e reconheceu os danos causados. Para Abbie, no entanto, o sentimento é de cautela.
“A prisão não traz paz, apenas pausa o problema”, afirma. “As pessoas só vão descansar quando ela realmente parar.”
Fonte: G1
