Falta de quimioterapia essencial força mudanças e preocupa médicos

Junior Santos
0


Falta de quimioterapia essencial força mudanças e preocupa médicos
Foto reprodução: G1

Um medicamento essencial, antigo e de baixo custo amplamente utilizado no tratamento de câncer e doenças autoimunes graves entrou em falta no Brasil, forçando médicos a adaptar protocolos terapêuticos em tempo real.

A ciclofosfamida endovenosa, presente há décadas na oncologia e na reumatologia, está com abastecimento comprometido. A escassez impacta desde esquemas clássicos de quimioterapia, como os usados no câncer de mama, até tratamentos para lúpus, vasculites e transplantes de medula óssea.

Diante do problema, o Ministério da Saúde tenta recompor estoques por meio de compras emergenciais, enquanto entidades médicas alertam que, embora existam alternativas, elas nem sempre oferecem a mesma eficácia e, em alguns casos, não há substituto ideal.

Um fármaco antigo, mas indispensável

A ciclofosfamida pertence à classe dos agentes alquilantes, atuando ao danificar o DNA de células que se multiplicam rapidamente, como células tumorais e do sistema imunológico. Mesmo sendo um medicamento desenvolvido há décadas, segue como peça-chave em protocolos considerados padrão.

Na oncologia, integra tratamentos consolidados para câncer de mama, tumores pediátricos e doenças hematológicas. Já na reumatologia, é fundamental em quadros graves, como lúpus com acometimento renal ou neurológico e vasculites sistêmicas, onde pode ser decisiva para evitar falência de órgãos.

Impacto direto no tratamento

Com a falta da versão intravenosa, médicos têm recorrido a adaptações possíveis. Entre elas, está o uso da forma oral da droga, ainda disponível no país, embora essa alternativa não atenda a todos os casos.

Também há substituição por protocolos que não utilizam a medicação ou ajustes na sequência dos tratamentos. Em alguns cenários, outras drogas podem ser incorporadas, mas com diferenças em eficácia, toxicidade e indicação clínica.

Na prática, sociedades médicas passaram a emitir recomendações emergenciais para orientar oncologistas e reumatologistas. Em casos mais sensíveis como tumores pediátricos, transplantes de medula e doenças hematológicas específicas a orientação é priorizar o uso dos estoques disponíveis, já que não há equivalentes completos.

Alternativas com limitações

No câncer de mama, por exemplo, estratégias incluem inverter etapas do tratamento ou utilizar esquemas com ciclofosfamida oral. Em situações específicas, medicamentos como a carboplatina podem ser adotados.

Já em doenças autoimunes, opções como micofenolato mofetil, rituximabe e outros imunossupressores podem ser utilizados. No entanto, especialistas reforçam que essas substituições exigem avaliação individual, considerando riscos e benefícios.

Escassez estrutural

O problema não é isolado. Especialistas apontam que a falta de medicamentos antigos, fora de patente e com baixo retorno financeiro, tem se tornado mais frequente. A produção concentrada em poucos fabricantes torna a cadeia vulnerável a falhas.

A farmacêutica Baxter International, responsável pelo fornecimento no Brasil, informou que a escassez decorre de uma interrupção técnica em uma fábrica parceira. Embora a produção tenha sido retomada, ainda opera abaixo da capacidade necessária para atender à demanda global.

Risco sistêmico

Para especialistas, a ausência da ciclofosfamida expõe uma fragilidade estrutural no sistema de saúde. Esses medicamentos são considerados a base de muitos tratamentos, e sua falta não implica apenas substituição, mas mudanças em toda a estratégia terapêutica com possíveis impactos em eficácia, custo e acesso.
Medidas emergenciais

O governo federal afirma ter adquirido, em caráter emergencial, milhares de unidades do medicamento, com distribuição prevista para centros de referência. Além disso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária foi acionada para agilizar processos de importação e liberação de lotes.

A expectativa oficial é de que o abastecimento comece a se normalizar gradualmente a partir de meados de 2026, conforme a produção global seja restabelecida.

Fonte: G1

Tags

Postar um comentário

0 Comentários

Postar um comentário (0)

#buttons=(Ok, Go it!) #days=(20)

Our website uses cookies to enhance your experience. Check Now
Ok, Go it!