As emissões de gases de efeito estufa provenientes de atividades humanas seguem como principal fator das mudanças climáticas que já impactam o cotidiano do Ceará e de diversas regiões do planeta. Substâncias como dióxido de carbono (CO₂), metano (CH₄) e óxido nitroso (N₂O) retêm calor na atmosfera, intensificando o aquecimento global e alterando padrões climáticos históricos.
Um dos reflexos mais evidentes desse processo é a multiplicação de eventos extremos. Ondas de calor, que antes ocorreriam de forma esporádica, tornaram-se quase nove vezes mais frequentes em escala global. No Ceará, especialistas alertam que, sem medidas efetivas de mitigação nas próximas décadas, o Estado poderá enfrentar mais dias secos, irregularidade crescente na distribuição das chuvas e aumento da temperatura média, inclusive em áreas serranas.
O alerta foi feito por Alexandre Costa, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e ex-gerente do Departamento de Meteorologia e Oceanografia da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). Ele palestrou durante o lançamento do Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Ceará, promovido pela Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Ceará (Sema), na última quarta-feira (11).
Segundo o pesquisador, o planeta está próximo de ultrapassar o limite de 1,5°C de aquecimento global estabelecido como meta central no Acordo de Paris, firmado em 2015. Em 2025, o aquecimento médio global já alcançou 1,44°C acima dos níveis pré-industriais. “O reflexo mais imediato, alarmante e notável é a multiplicação de eventos extremos”, destacou.
CENÁRIOS PARA O CEARÁ ATÉ 2100
Ao projetar o futuro climático do Estado até o fim do século, Alexandre Costa aponta dois caminhos possíveis, baseados em diferentes níveis de emissões. No cenário mais crítico, com manutenção elevada do uso de combustíveis fósseis e ausência de políticas eficazes, a temperatura média poderá ultrapassar os 30°C em quase todo o território cearense. Mesmo regiões serranas teriam médias superiores a 27°C.
Em relação às chuvas, o volume total anual pode não apresentar redução drástica estimativa de queda de cerca de 3% no pior cenário, mas a distribuição tende a se tornar mais desigual. As projeções indicam maior concentração de precipitações na porção norte do Estado e diminuição no sul, onde estão importantes reservatórios estratégicos para o abastecimento. Esse desequilíbrio pode ampliar a dependência hídrica da Transposição do Rio São Francisco.
DIAS MAIS QUENTES E ESTIAGENS PROLONGADAS
O Ceará está inserido no que a ciência classifica como “terras secas”, regiões que aquecem mais rapidamente do que áreas úmidas, como partes do Nordeste brasileiro e do continente africano. Com menor umidade no solo para evaporação, a energia solar é convertida diretamente em aumento da temperatura da superfície.
Além do calor mais intenso, as projeções apontam mudanças na dinâmica das chuvas. Pode haver aumento de 6% a 18% na intensidade de precipitações severas, dependendo do cenário considerado. Episódios extremos podem provocar rompimento de barragens, erosão acelerada e empobrecimento do solo, com perda de nutrientes.
Outro impacto previsto é o prolongamento do período de estiagem. No cenário de altas emissões, a estação seca pode se estender por até 25 dias adicionais, comprometendo a agricultura, a segurança alimentar e o equilíbrio hídrico do Estado.
RISCO GLOBAL E NECESSIDADE DE AÇÃO
O especialista também alertou para possíveis tensões geopolíticas associadas ao agravamento da crise climática. Em um cenário de “rivalidade regional”, acordos internacionais poderiam ser enfraquecidos ou rompidos, dificultando a cooperação global no enfrentamento do problema.
Caso o mundo não reduza drasticamente o uso de combustíveis fósseis, projeções indicam que o aquecimento global pode atingir até 5°C até o ano 2300, tornando diversas áreas do planeta inabitáveis e inviabilizando a produção agrícola em larga escala.
Para Alexandre Costa, o enfrentamento do desafio passa necessariamente pelo fortalecimento da ciência. “Precisamos de mais pesquisa, especialmente produzida aqui, para compreender melhor os impactos regionais e construir estratégias sólidas de adaptação e resiliência”, defendeu.
DE ONDE VÊM OS GASES DE EFEITO ESTUFA?
Atualmente, a atmosfera absorve muito mais calor do que no período pré-industrial. As principais fontes de emissão incluem a queima de combustíveis fósseis para geração de energia e transporte, atividades industriais, desmatamento e práticas agropecuárias. Reduzir esses impactos exige transição energética, preservação ambiental e políticas públicas consistentes voltadas ao desenvolvimento sustentável.

