
Foto reprodução: G1
Homens não apenas desenvolvem câncer do sangue com maior frequência do que mulheres, como também costumam receber o diagnóstico em estágios mais avançados da doença. É o que aponta um estudo internacional sobre mieloma múltiplo, tipo de câncer hematológico que afeta a medula óssea.
A pesquisa, publicada na revista científica Cancer, analisou dados de 850 pacientes recém-diagnosticados atendidos em um grande centro de referência nos Estados Unidos. Mesmo após ajustes para idade, raça, renda, escolaridade, índice de massa corporal, tabagismo e consumo de álcool, o sexo masculino permaneceu associado a uma forma mais grave da doença.
Na prática, os homens chegaram ao diagnóstico com maior carga tumoral e sinais mais evidentes de danos ao organismo, como lesões ósseas extensas e comprometimento dos rins.
O que é o mieloma múltiplo
O mieloma múltiplo se origina nas células plasmáticas, responsáveis pela produção de anticorpos e localizadas na medula óssea. Quando se tornam cancerígenas, essas células passam a se multiplicar de forma desordenada, prejudicando a produção normal do sangue e afetando diferentes órgãos.
Com a progressão da doença, podem surgir dores ósseas intensas, fraturas, anemia, infecções frequentes e alterações renais. Apesar de ainda não ter cura, o mieloma é atualmente tratado como doença crônica, com terapias capazes de controlar o câncer por longos períodos especialmente quando o diagnóstico é precoce.
Principais achados do estudo
Segundo a análise, os homens apresentaram com mais frequência:doença em estágio mais avançado no momento do diagnóstico;
maior carga tumoral, indicada por níveis elevados de proteína monoclonal no sangue;
mais lesões ósseas, com maior risco de dor intensa e fraturas;
maior comprometimento da função renal, o que pode dificultar o tratamento inicial.
Essas diferenças persistiram mesmo após o controle de fatores socioeconômicos e comportamentais, reforçando a hipótese de que o sexo masculino seja um fator de risco independente.
Biologia e comportamento
Para especialistas, os resultados sugerem uma combinação de fatores biológicos e comportamentais. A hematologista Mariana Kerbauy, do Hospital Israelita Albert Einstein, explica que homens já apresentam maior incidência de mieloma no mundo todo, embora as causas não sejam totalmente conhecidas.
“Diferenças hormonais, resposta do sistema imunológico, maior exposição a fatores ambientais e menor procura por atendimento médico podem atuar juntas”, afirma.
Segundo a especialista, o fato de os homens chegarem ao diagnóstico com maior carga tumoral e mais danos ao organismo indica tanto uma possível biologia mais agressiva da doença quanto atraso na busca por cuidados médicos.
Influência hormonal e sistema imune
Uma das principais linhas de investigação envolve o papel dos hormônios sexuais. A onco-hematologista Mariana Serpa, do Hospital Sírio-Libanês, explica que estudos sugerem que hormônios masculinos podem interferir em processos como inflamação, reparo do DNA e regulação do ciclo celular, favorecendo formas mais agressivas do câncer.
Já hormônios femininos, como o estrogênio, parecem exercer efeito mais protetor sobre o sistema imunológico, o que pode ajudar a explicar a menor gravidade da doença entre mulheres.
Sintomas que não devem ser ignorados
Especialistas alertam que alguns sinais do mieloma múltiplo costumam ser subestimados, especialmente entre homens:dor óssea persistente, principalmente na coluna e costelas;
cansaço intenso sem causa aparente;
fraturas após traumas leves;
infecções frequentes;
alterações em exames simples, como anemia ou creatinina elevada.
“Muitos homens atribuem esses sintomas à idade, ao estresse ou ao trabalho físico, o que atrasa o diagnóstico”, explica Kerbauy.
Doença também atinge adultos mais jovens
Embora o risco aumente com a idade, o estudo mostrou que homens mais jovens também podem apresentar a doença em estágio avançado. No Brasil, inclusive, a idade média ao diagnóstico é cerca de dez anos menor do que nos Estados Unidos.
“É preciso rever a ideia de que o mieloma é uma doença apenas de idosos”, destaca Kerbauy.
Realidade brasileira
Apesar de o estudo ter sido realizado nos EUA, especialistas avaliam que os resultados são aplicáveis ao Brasil. Diferenças biológicas são universais, e fatores como menor procura por atendimento preventivo e demora na realização de exames podem agravar ainda mais o cenário entre homens brasileiros.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico do mieloma envolve exames de sangue e urina, exames de imagem e avaliação da medula óssea. O tratamento pode incluir quimioterapia, imunoterapia, transplante autólogo de medula óssea e, em casos específicos, terapias celulares.
“Com os avanços das terapias, muitos pacientes conseguem viver anos ou décadas com boa qualidade de vida, principalmente quando o diagnóstico ocorre precocemente”, conclui Kerbauy.
Fonte: G1
Por que homens têm formas mais graves de câncer do sangue
janeiro 19, 2026
0
Tags
