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| Foto reprodução: G1 |
“Pessoas gordas só precisam de mais autocontrole.”
“É falta de responsabilidade pessoal.”
“Basta comer menos.”
Frases como essas apareceram em quase dois mil comentários deixados por leitores após um artigo que escrevi, em 2025, sobre o uso de injeções para perda de peso. A ideia de que a obesidade é apenas resultado de escolhas individuais ou de falta de força de vontade segue amplamente difundida inclusive entre alguns profissionais de saúde.
Um estudo publicado na revista científica The Lancet, com participantes do Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos, mostrou que 8 em cada 10 pessoas acreditam que a obesidade poderia ser totalmente evitada apenas com mudanças no estilo de vida. Para a nutricionista Bini Suresh, com duas décadas de experiência no acompanhamento de pacientes com obesidade e sobrepeso, essa visão é não apenas simplista, mas injusta.
“Vejo com frequência pessoas altamente motivadas, informadas e disciplinadas, que ainda assim enfrentam enorme dificuldade para controlar o peso”, afirma. “Reduzir tudo à força de vontade ignora a complexidade do problema.”
A médica Kim Boyd, diretora médica do Vigilantes do Peso, concorda. “Durante décadas, repetiu-se que bastava comer menos e se exercitar mais. Hoje sabemos que a obesidade é muito mais complexa do que isso.”
Especialistas apontam que fatores genéticos, hormonais, metabólicos, psicológicos e ambientais influenciam diretamente o peso corporal e que a disputa não ocorre em condições iguais para todos.
Genes, metabolismo e o “peso programado”
Segundo a endocrinologista Sadaf Farooqi, da Universidade de Cambridge, a genética exerce um papel central no controle da fome, da saciedade e do metabolismo. “Alguns genes alteram circuitos cerebrais que fazem a pessoa sentir mais fome e menos saciedade após comer”, explica.
Uma das variantes genéticas mais conhecidas, associada à alimentação excessiva, está presente em cerca de 20% da população mundial. Outros genes influenciam a velocidade com que o corpo queima calorias, fazendo com que algumas pessoas ganhem mais peso ingerindo a mesma quantidade de alimento que outras.
Esses mecanismos ajudam a explicar por que medicamentos modernos para perda de peso têm mostrado resultados expressivos: eles atuam justamente nesses circuitos biológicos.
Outro conceito importante é o do set point, ou “ponto de ajuste” do peso corporal. De acordo com o cirurgião bariátrico Andrew Jenkinson, o cérebro tende a defender um peso considerado ideal mesmo que não seja saudável. Quando a pessoa emagrece rapidamente, o organismo reage como se estivesse passando fome, aumentando o apetite e reduzindo o metabolismo.
Esse processo ajuda a explicar o chamado “efeito sanfona”. “Os sinais de fome gerados pelo corpo são extremamente fortes e difíceis de ignorar”, afirma Jenkinson.
Um ambiente que favorece o ganho de peso
Apesar da influência genética, ela sozinha não explica o crescimento da obesidade no Reino Unido. Dados da Health Foundation mostram que mais de 60% dos adultos britânicos estão acima do peso, sendo cerca de 28% obesos.
Especialistas apontam para o chamado “ambiente obesogênico”: abundância de alimentos ultraprocessados, publicidade agressiva, porções cada vez maiores, alimentos saudáveis mais caros e poucas oportunidades para atividade física.
“A comida está em todo lugar”, diz Alice Wiseman, diretora de saúde pública em Newcastle. “A visibilidade importa. Quanto mais pontos de venda no caminho, maior a chance de consumir.”
Medidas recentes do governo britânico, como a restrição à publicidade de alimentos não saudáveis antes das 21h e nas plataformas digitais, são vistas como positivas, mas insuficientes diante da magnitude do problema.
Responsabilidade individual ou coletiva?
O debate divide opiniões. Para alguns especialistas, políticas públicas são essenciais para reduzir estímulos ao consumo excessivo. Para outros, como representantes de think tanks liberais, a obesidade é uma questão individual, e o Estado não deveria interferir.
Ainda assim, há consenso entre muitos profissionais de saúde de que tratar a obesidade como falha moral é prejudicial. “Não é uma falha de caráter, mas uma condição crônica, moldada pela biologia e pelo ambiente”, afirma Suresh.
A psicóloga Eleanor Bryant acrescenta que a força de vontade não é fixa e varia conforme fatores como estresse, cansaço e fome. Ela diferencia a força de vontade rígida, que leva ao pensamento do “já que errei, vou continuar”, da flexível, que permite ajustes sem culpa abordagem mais eficaz no longo prazo.
Compreender os limites da força de vontade, dizem os especialistas, não significa descartá-la, mas inseri-la em um contexto mais amplo, baseado em ciência, empatia e apoio contínuo.
“Quando as pessoas entendem que suas dificuldades têm base biológica e não moral, elas se sentem mais capazes de mudar”, conclui Suresh. “E, paradoxalmente, passam a ter mais controle.”
Fonte: G1

